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Geek Queer: personagens LGBT em games promovem autoaceitação

A representatividade dentro dos jogos ainda é pequena e avança a passos tímidos, mas fornece um feixe de esperança em prol de maior presença queer nas produções

a protagonista do jogo 'Life is Strange', Max, se envolve com a amiga de infância, Chloe
Foto: Reprodução/YouTube - 16.09.2022
a protagonista do jogo 'Life is Strange', Max, se envolve com a amiga de infância, Chloe

A presença de personagens LGBTQIAP+ no cinema e nas séries  funciona como termômetro para analisar o avanço das discussões acerca da comunidade no ambiente do entretenimento. Contudo, outro gênero que carrega símbolos queer bem populares e que podem ter influência direta na autoaceitação de pessoas LGBT e nas discussões sobre sexualidade e identidade de gênero em si são os games. 

Voltando um pouco no tempo, a partir das décadas de 1970 e 1980 os jogos se popularizaram no Brasil, primeiramente os de arcade, console e posteriormente os jogos de computador, ou seja, a democratização dessa fonte de lazer ocorreu aos poucos. Com o passar dos anos, surgiram nomes na indústria mundial que se preocuparam em trazer elementos queer que tinham relevância para o plot – enredo – dos jogos e proporcionaram uma dose refrescante de representatividade em um ramo que ainda é majoritariamente masculino, hétero e cisgênero. 

Para Morgan Klimeck, homem trans e bissexual, os games, ou melhor, um jogo em específico, foi fundamental para que ele conseguisse compreender e aceitar melhor a própria identidade de gênero. “Dragon Age”, explica ele, “é um RPG de mundo aberto que tem uma quantidade enorme de pessoas LGBT. No terceiro jogo, que foi o primeiro que eu joguei, no caso — porque é uma franquia que você pode jogar cada jogo fora de ordem, que não vai ter problema no entendimento da história  — tem um personagem homem trans que é o Krem. Ele é um mercenário que faz parte de grupo de um dos personagens principais da jogatina, o Iron Bull”. 

Klimeck conta que se identificou bastante com o personagem em questão, e este foi o pontapé para que entrasse em contato de fato com a transgeneridade e conseguisse entender a si mesmo. “No jogo eles destacam bastante a questão da aceitação e descoberta, como o Krem lida com isso e como o Bull acolheu ele. Eu me identifiquei muito e isso ajudou no meu próprio processo, lá no começo”. 

Além de Krem, Morgan também destaca outras vivências LGBTQIAP+ dentro do jogo que expandem a narrativa queer e naturalizam ainda mais a vivência desses indivíduos, mesmo que seja em um contexto fictício.

“O jogo também destaca outras narrativas LGBT, como o Dorian. Ele é um homem gay e vem da região de Tevinter. No jogo, é possível jogar as missões secundárias envolvendo a história do Dorian e ver como é a relação com a família dele, que envolve preconceito e não aceitação da sexualidade dele. Também vale lembrar da Sera, que é lésbica, e o Iron Bull, que é pansexual. É um jogo muito diversificado”, destaca. 

Ele também exemplifica como acabou espelhando a própria vivência por meio do jogo: “Todos os meus personagens foram homens, do jeito que eu me enxergava. Jogos no geral foram uma fonte de informação e autoconhecimento para mim, sem ser necessariamente tenso. É algo descontraído e que vai te introduzindo na narrativa”. 

Giulia Rossi, por sua vez, é uma mulher cis lésbica e conta que a experiência com os jogos vem desde cedo. Antes de 2010, porém, ela costumava ter contato com jogatinas mais violentas, incluindo lutas e tiro, por exemplo, que não exploravam muito da história em si, tampouco sexualidade ou identidade de gênero.

“Com o passar do tempo, surgiram personagens canonicamente [oficialmente] LGBT nos jogos . GTA tinha, por exemplo, e Metal Gear também, mas isso não era realmente abordado. De 10 anos para cá, esse cenário vem mudando”, lembra. 

De acordo com ela, ter  referências LGBT dentro dos jogos a ajudou bastante na jornada de autoaceitação. “Meu jogo preferido se chama Skyrim [2011]. Em determinado momento, ficou disponível a possibilidade do seu personagem casar, independentemente do gênero dele e do parceiro ou parceira escolhidos. Isso me ajudou bastante, apesar de ser um detalhe pequeno. Eu podia sair, matar vários dragões e depois voltar para casa e encontrar minha esposa. Além disso, também era possível adotar filhos”. 

Porém, o jogo que para ela foi um ‘boom’ na indústria e trouxe uma proposta de representatividade bem importante foi Life is Strange (2015). “O casal principal era formado por duas meninas, Max e Chloe”, relembra ela. “A Chloe era punk e toda tatuada, já a Max tinha uma expressão mais delicada. As duas foram um marco bem grande”. Ela também cita o jogo The Last of Us, cuja protagonista da segunda produção da franquia, Ellie, é abertamente lésbica e protagoniza cenas de beijo. 

“É um jogo muito importante”, reforça. “Existe todo um relacionamento entre ela e a mulher que ela ama, e as duas até adotam uma criança. Embora esse não seja o foco do jogo [que tem como temática central o apocalipse zumbi], foi muito legal ver esse lado da história e poder acompanhar o desenvolvimento”. 

Apesar de tais expoentes que conseguiram marcar a indústria, Rossi pontua que ainda existe muito machismo e LGBTfobia envolvidos no ramo dos games, então nem tudo é um mar de rosas. “As pessoas ainda têm a ideia de que no mundo gamer 80% do público é masculino, mas não é assim”, diz ela. “Na verdade, temos uma dinâmica metade-metade. Tem muitas mulheres jogando, mas ficamos ‘escondidas’, especialmente em jogos on-line. As chances são grandes de entrar em um chat durante uma partida em grupo e ouvir coisas como: ‘Ah, é mulher, perdemos’, ou ‘O que você está fazendo aqui? Vai lavar uma louça’. Isso quando não ocorrem assédios”.

Além do machismo enraizado, por mais que alguns jogos com representatividade LGBT tenham uma boa recepção de maneira geral, ainda existe uma parcela do público que não aceita a diversidade dentro dos games , ou que sempre encontrará uma forma de questionar a existência de um personagem queer, como se isso diminuísse a qualidade do jogo ou da trama em si. 

“Tiveram muitas críticas sobre a própria Ellie, de The Last of Us”, exemplifica Giulia. “Ainda existe muita LGBTfobia. Acho que estamos caminhando para ver mais representatividade, tanto de mulheres quanto pessoas LGBT, em jogos e no mundo gamer em geral, contudo o preconceito ainda marca presença. Estamos ganhando espaço e vendo cada vez mais personagens queer nas produções. Felizmente as empresas não fazem jogos para essa minoria preconceituosa, então há esperanças”, conclui.

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