Márcia Rocha (à esquerda) e Natália Rosa (à direita) são mulheres trans e lésbicas
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Márcia Rocha (à esquerda) e Natália Rosa (à direita) são mulheres trans e lésbicas




Um dos maiores desafios de discutir assuntos ligados à comunidade LGBTQIAP+ é reconhecer que cada letra possui as respectivas demandas e pautas, porém nem sempre elas andam totalmente isoladas umas das outras. O que grande parte dos debates deixa de lado é o fato de que um único  indivíduo pode estar enquadrado em mais de uma letra ao mesmo tempo , criando uma interseccionalidade que une duas pautas em uma.

Nesses casos, é preciso unir as respectivas demandas e organizá-las dentro de um novo contexto que as marginaliza de diferentes formas e em diferentes níveis. Neste dia da visibilidade lésbica, é importante lembrar que nem todas as  mulheres lésbicas são cisgênero: mulheres trans também vivenciam a lesbiandade e, portanto, conhecem a realidade de ser trans e de ser  lésbica simultaneamente. 

Márcia Rocha , empresária, advogada integrante da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP (Ordem dos Advogados do Brasil, em São Paulo) e fundadora e coordenadora do Projeto Transempregos, ressalta que a distinção entre orientação sexual e identidade de gênero é muito importante quando se trata de discutir vivências como a dela. 

“Hoje sabemos que orientação sexual é uma coisa e identidade de gênero é outra. São duas coisas que andam juntas, mas são independentes”, destaca.

Orientação sexual diz respeito a por quem os indivíduos se atraem sexual ou romanticamente, e identidade de gênero é sobre quem a pessoa é. 

“Eu sempre me atraí por mulheres e, ao mesmo tempo, sempre me identifiquei enquanto mulher também. Só me assumi como trans na fase adulta, quando tive contato com as pautas LGBT e pude me descobrir de fato. Hoje, no âmbito acadêmico, me apresento como uma travesti lésbica”, conta. 

Já para Natália Antunes da Rosa Lima , produtora de conteúdo e empreendedora, a identidade de gênero se manifestou antes da orientação sexual. Ela percebia que não se sentia confortável com o gênero que lhe foi imposto e, aos nove anos, começou a explorar o nome Natália, com o qual se sentia confortável. 

“Desde pequena eu tinha o pensamento de que era errado me reconhecer enquanto mulher estando em um papel masculino que me foi imposto. Guardei essas questões para mim mesma por muito tempo e me assumi só após os 25 anos. Quanto à minha orientação sexual, já na pré-adolescência eu percebi que me atraía por outras mulheres, então precisei conviver com a combinação de me entender enquanto mulher e ao mesmo tempo me sentir atraída por elas”, explica. 

Trans e lésbica: os olhares e os impasses

O fato de muitas pessoas ainda não estarem cientes da diferença entre orientação sexual e identidade de gênero é uma das questões que mais afeta aqueles que se enquadram na interseccionalidade. Natália conta que essa desinformação está presente tanto no ambiente cis-hétero normativo quanto no próprio meio LGBTQIAP+.

“Existe um estereótipo de que ser uma mulher trans está atrelado ao fato de ser homossexual, como se fôssemos ‘um homem tão gay que deseja ser uma mulher’. Essa percepção, a meu ver, é a raiz que leva as pessoas a não conseguirem separar a identidade da sexualidade. Além disso, existe a transfobia que circula dentro da comunidade LGBT, incluindo algumas feministas radicais que são lésbicas e resumem a mulher apenas à anatomia e desconsideram vivências trans”, expõe. 

A expressão de gênero também é um ponto que pode se tornar agravador de alguns processos de exclusão para mulheres trans lésbicas. Márcia conta que a forma como se relaciona com outras mulheres mudou após a própria transição. 

“Quando eu tinha uma expressão de gênero masculina, as mulheres me ‘davam bola’. Depois da transição não foi tão fácil me relacionar, a não ser que eu frequentasse ambientes voltados para mulheres lésbicas onde eu pudesse ser reconhecida como a mulher que sou. Hoje, inclusive, sou casada”, conta. 

A receptividade de mulheres trans lésbicas em espaços sociais, por exemplo, ainda não é uma questão devidamente discutida, de acordo com Natália. Ela diz que essa interseccionalidade está além da compreensão da maioria, o que as torna praticamente invisíveis em qualquer ambiente, além de combinar a violência sofrida por ser trans com a violência sofrida por ser lésbica. 

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“No começo da minha transição, quando eu ainda não tinha tanta passabilidade, sentia muito medo de ocupar espaços públicos justamente pela falta de segurança e exposição à violência. Agora, com maior passabilidade, meu maior medo é a lesbofobia, pois sei que andar de mãos dadas com a minha namorada pode gerar represálias”, diz. 

Já na visão de Márcia, a marginalização sofrida por mulheres trans já é tão grande que o fato de ser lésbica acaba mudando pouco o panorama geral das suas vivências sociais. 

“Ser lésbica ou não acaba não fazendo muita diferença, pois as violências estarão presentes inevitavelmente pelo fato de eu ser uma mulher trans. A única questão é que se eu estiver beijando a minha esposa, por exemplo, a violência a qual já estou exposta pode ser intensificada, mas eu correria riscos de qualquer maneira”, explica. 

Além da vida pessoal e das vivências em ambientes compartilhados, o campo do trabalho também tem grande peso na vivência de mulheres trans lésbicas, porque a população LGBTQIAP+ é naturalmente marginalizada nestes espaços. Márcia, que faz parte da Comissão da Diversidade Sexual e de Gênero da OAB/SP, diz que nesse aspecto ela nunca teve dificuldades, por ser um espaço feito para acolher vivências como a sua, porém, curiosamente, as maiores barreiras que ela encontrou foram no próprio movimento social de mulheres trans e travestis. 

“Elas (outras mulheres travestis e trans) não aceitavam bem o fato de eu me atrair por mulheres, pelo menos as que não são lésbicas. É interessante, por um lado, porque mostra que elas não estão dispostas a se deparar e conviver com possibilidades que fogem da sua própria realidade”, pontua. 

Com Natália a questão é semelhante: empresária, ela tem uma agência de design, chamada Forasteiro, e estar na posição de CEO a protege de ataques transfóbicos vindos dos funcionários. A maior preocupação é sobre os clientes.

“Eu me perguntava: ‘Será que vou ser tratada de forma diferente? Será que vão me pedir para cobrar menos pelo serviço por se trans?’. Isso rondava a minha cabeça, mas acredito que o chefe dita como a empresa funciona, e como sou uma mulher trans lésbica, a empresa acaba sendo vista como uma instituição voltada para a diversidade, então atrai um público com mente aberta e ligado direta ou indiretamente a essas questões. Dificilmente uma empresa com o CEO homofóbico e transfóbico vai procurar pelos nossos serviços, por exemplo, então notei uma mudança grande de público”, conta. 

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Mulheres trans e lésbicas sofrem os impactos da interseccionalidade
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Mulheres trans e lésbicas sofrem os impactos da interseccionalidade


Viver essa interseccionalidade em um país com altos índices de violência à população LGBTQIAP+ é estar constantemente exposta a violências e incompreensões no meio do caminho, mas para Márcia essa discussão está, aos poucos, sendo mais disseminada e normalizada dentro da comunidade. 

“Ainda existe resistência e eu, particularmente, sempre recebi mais aceitação por parte do meio lésbico em si do que no meio trans, tanto que tenho muitas amigas lésbicas e me sinto muito bem ao lado delas”, destaca. 

A quebra dos preconceitos, que deveria partir apenas do lado de fora da comunidade, também precisa agir dentro dos meios LGBTQIAP+, no qual ainda existem indivíduos que veem e tratam as outras letras como uma ameaça, ou como se as pautas dos demais integrantes da comunidade invalidassem as suas próprias. Essas desmistificações levam tempo para acontecer, então falar sobre essas questões e atingir todas as letras da sigla independentemente das pautas é importante: uma vez que toda a comunidade esteja bem informada sobre determinado assunto, os preconceitos internos podem ser quebrados aos poucos. 

Além das discussões, as políticas também precisam avançar para compreender a complexidade de todas as formas de vida, tanto no âmbito da identidade quanto da sexualidade. Rayane Ribas Martuchi , psicóloga (CRP 06/159957), psicoterapeuta e educadora, ressalta essa importância para garantir uma vivência social saudável para todos. 

“Enquanto estrutura, precisamos de uma sociedade que não apenas respeite as pessoas trans, LGBTIQIA+, mulheres, pessoas pretas e demais grupos em vulnerabilidade, mas que também lute contra essas formas de violência. Isso envolve políticas afirmativas que garantam o ingresso e permanência de pessoas trans no trabalho, nas universidades, nos programas de pós-graduação, em programas de renda e formação profissional”, explica. 

Natália, assim como Márcia, também entende que a recepção da comunidade lésbica para com mulheres cis está progredindo mais. 

“O movimento lésbico ainda está entendendo a questão da mulher trans lésbica. Não tínhamos espaço nos campos de discussão até pouco tempo, então só agora estamos aparecendo dentro do movimento e sendo percebidas. Na minha visão, a recepção é bem positiva e temos tudo que é preciso para que mulheres trans lésbicas estejam bem acolhidas dentro do movimento lésbico”, diz.

Sobre a importância dessa união e da promoção de espaços seguros, Rayane pontua o ideal seria encontrar mais pessoas ao redor que ofereçam conforto e estabilidade, bem como locais seguros de discussão e desabafo. 

“Organizem-se coletivamente, teçam a sua rede de apoio com outras pessoas. Estar com aqueles que passam por algo parecido, poder trocar experiências, ouvir, aprender, oferecer suporte, é potencialmente transformador. Espaços onde nos sentimos pertencentes, validados, bem quistos, é essencial para o fortalecimento e continuidade das nossas lutas e existências”, orienta ela.

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